Quando eu tinha 21 anos e me assumi como uma mulher cis lésbica — hoje me reconheço como uma pessoa transmasculina — uma das coisas que mais me marcou não foi um grito, uma expulsão ou um grande escândalo familiar (AINDA BEM) Mas foi algo silencioso.

Minha mãe colocou uma oração debaixo do meu colchão.

E isso pode parecer pequeno pra muita gente, até bonito dependendo da interpretação. Tem gente que provavelmente leria essa cena e pensaria: “que mãe preocupada”, “que gesto de amor”, “ela estava tentando ajudar”.

Mas não foi isso que eu senti.

Porque aquela oração não foi colocada ali como uma mãe que ora pelo bem-estar do filho, pela saúde, pela proteção ou pela felicidade dele. Aquela oração tinha um objetivo muito específico: mudar quem eu era.

E porque eu sei disso?

Porque o colchão da minha irmã não tinha oração nenhuma embaixo. Porque ela não precisava ser corrigida, eu precisava.

E existe uma violência muito silenciosa em ser amado apenas sob a condição de se tornar outra pessoa.

Foi ali que eu comecei a perceber uma coisa muito difícil de aceitar: muitas pessoas religiosas não enxergam pessoas LGBTQIA+ como indivíduos vivendo suas próprias experiências humanas, mas como projetos de conversão.

E isso aparece de formas quase que imperceptíveis.

Hoje em dia, muitas vertentes religiosas já entenderam que atacar diretamente afasta. Então o movimento mudou. Primeiro vem o acolhimento, o abraço, o “Deus ama você”, o “você é bem-vindo aqui”. E só depois começam, aos poucos, a plantar certas ideias como quem não quer nada.

“Deus criou homem e mulher.” “Isso não é o plano de Deus.” “Você ainda vai entender o propósito dele.”

E essas frases nunca vêm vazias, vem com a intenção de enfraquecer a afirmação da identidade da pessoa, de fazer ela duvidar de si mesma, de gerar conflito interno suficiente para que, no momento de fragilidade, a religião apareça oferecendo a “cura”.

Eu penso que essa seja uma das coisas mais cruéis que eu já percebi sobre certas estruturas religiosas: elas chamam de amor um processo constante de enfraquecimento da identidade do outro.

Como se existir fora da norma fosse uma doença espiritual, como se a salvação estivesse em abandonar a si mesmo.

E eu sinceramente prefiro alguém que discorde totalmente de mim, mas me respeite, do que alguém que diz me amar enquanto tenta lentamente apagar quem eu sou.

Eu lembro que eu tive uma líder no trabalho que me ensinou isso de forma muito mais espiritual do que muita gente religiosa que já cruzou meu caminho. Ela me disse claramente que não entendia e nem concordava com a minha transição de gênero. E, honestamente, eu prefiro mil vezes essa sinceridade do que um falso acolhimento cheio de segundas intenções.

Porque, mesmo discordando, ela me respeitou.

Mais do que isso: ela me defendeu.

Quando falavam de mim pelas costas, quando aconteciam violências psicológicas no ambiente de trabalho, era ela quem me incentivava a continuar forte e construir minha identidade conforme aquilo que eu acreditava.

Isso, pra mim, é amor: Não é concordar com tudo, não é pensar igual, não é validar cada escolha da pessoa.

É somente não tentar destruir a individualidade dela em nome das próprias crenças.

E talvez seja justamente por isso que hoje eu tenha tanto desconforto com a ideia de “oração pela salvação”. Porque, na prática, muitas vezes isso não vem de um lugar genuíno de compaixão. Vem de um lugar de superioridade moral, como se a outra pessoa estivesse perdida, corrompida, desviada… e precisasse ser trazida de volta ao caminho correto.

Só que existe uma pergunta que quase nunca é feita: e se o problema não for a pessoa… mas a necessidade que algumas religiões têm de controlar quem ela é?

Porque quanto mais eu observo, mais eu percebo que muitas dessas estruturas não suportam a espontaneidade humana. Não suportam corpos livres, identidades livres, sexualidades livres, pensamentos livres.

Tudo precisa ser enquadrado, nomeado, corrigido, domesticado.

E isso me fez entender uma coisa muito importante: discordar não é violência.

Violência é tentar convencer alguém de que ela precisa deixar de ser quem é para merecer amor, pertencimento ou salvação.

Por isso eu continuo preferindo um amigo ateu que me respeite profundamente, mesmo sem entender completamente minha vivência, do que dez religiosos orando para que eu me torne alguém que finalmente agrade as crenças deles.

Porque, ao meu ver, ser respeitado sempre foi mais humano do que ser “corrigido”.

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