Durante muito tempo da minha vida, minha relação com Deus foi baseada em medo.

Não naquele medo infantil de filme de terror ou de achar que algo ia aparecer no escuro (porque esse medo eu tenho até hoje hahahaha) Era um medo muito mais silencioso, mais psicológico, mais difícil de perceber. Eu conversava com Deus como se eu fosse um súdito e ele um rei distante, intocável, alguém que eu não podia decepcionar de maneira nenhuma.

E isso moldava completamente minha forma de viver.

Eu sentia que precisava dele para estar bem, mas não num lugar de amor ou conexão. Era literalmente uma dependência emocional construída pela culpa. Como se me afastar dele significasse automaticamente abrir espaço para que coisas ruins acontecessem comigo.

E depois de mais de 1 década eu posso afirmar que não vivia a espiritualidade eu vivia vigilância. E hoje percebo como isso tudo é pesado demais.

Porque uma pessoa que acredita estar sendo observada o tempo inteiro por uma consciência pronta para puni-lá… nunca relaxa completamente. Ela vive se policiando, analisando os próprios pensamentos, tentando prever o que pode ou não “desagradar a Deus”.

Só que, olhando pra trás, eu percebo uma coisa muito importante: muitas vezes o “castigo divino” era só a culpa religiosa reorganizando os acontecimentos da minha vida.

Eu lembro, por exemplo, de um relacionamento que eu terminei com um moço maravilhoso. Ele era uma pessoa boa, mas eu não gostava mais dele. E mesmo sabendo disso, depois que terminei nosso relacionamento, eu passei muito tempo sem encontrar alguém para estar junto e comecei a acreditar que Deus estava me punindo por não ter valorizado aquele relacionamento.

Hoje isso parece muito cruel, porque eu transformava qualquer sofrimento da vida em sentença espiritual.

Como se Deus estivesse constantemente avaliando meus comportamentos e distribuindo recompensas ou punições dependendo da minha obediência. E aí (muito fod*) isso atravessava a forma como eu sentia desejo, em outras palavras, como eu lidava com minha kundalini.

Antes mesmo de me descobrir uma mulher cis lésbica — e muito antes de entender minha transmasculinidade — eu lembro de estar em um congresso e perceber claramente que uma moça estava interessada em mim. E eu também senti aquilo. Meu coração acelerou. Existia um magnetismo muito forte ali.

Mas eu ignorei completamente, fingi que nem tava percebendo.

Porque eu sabia que aquilo era inadmissível dentro da lógica religiosa que me cercava. Eu não deixei de viver aquilo porque não senti. Eu deixei porque senti medo.

E eu vejo que essa seja uma das coisas mais violentas que certas religiões fazem: transformar espontaneidade em ameaça espiritual.

Porque aí o corpo deixa de ser um espaço de experiência e passa a ser um campo de vigilância.

Eu vivia tentando controlar meus pensamentos, minhas vontades, minhas sensações, para não ir contra os “desígnios de Deus”. Mas hoje eu vejo que, muitas vezes, esses desígnios não eram de Deus (NUNCA FORAM)

Eram da religião, eram mecanismos de controle.

E eu acredito profundamente que a ideia de castigo divino é usada justamente para isso: controlar massas emocionalmente, espiritualmente, mentalmente, financeiramente… Porque pessoas castradas pelo medo são muito mais manipuláveis.

Uma pessoa que sente culpa por existir não questiona. Não enfrenta. Não rompe estruturas. Ela apenas se submete e eu me submetia para um caralh*.

A virada na minha vida começou quando conheci a ideia da reencarnação. Porque, pela primeira vez, Deus deixou de parecer um juiz pronto para me condenar e começou a fazer mais sentido como uma inteligência que permite aprendizado, experiência, crescimento.

Não punição, mas aprendizado, porque aí os erros deixam de ser uma prova de fracasso espiritual e passam a ser parte da construção da consciência e eu penso que seja justamente por isso que hoje eu tenha tanta dificuldade de definir Deus.

Porque qualquer definição parece pequena demais, mas se eu tivesse que tentar dizer de alguma forma, eu diria que Deus é o Criador de tudo que existe e que se expressa através da própria criação.

Não como um rei distante esperando obediência, mas como presença, como manifestação, como vida.

E talvez o mais triste da ideia de castigo divino seja justamente isso: ela faz as pessoas esquecerem o significado da palavra “Divino”.

Porque o Divino deveria expandir consciência, não produzir medo, não gerar culpa, não transformar a existência humana em um eterno estado de vigilância e punição.

E a pergunta que mais me atravessa hoje é:

quantas pessoas nunca descobriram quem realmente eram… porque passaram a vida inteira tentando não decepcionar Deus?

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