Quando eu cresci dentro da igreja, tinha uma coisa que era repetida o tempo inteiro sobre Maria, mãe de Jesus: ela era virgem.

Não era sobre quem ela foi. Não era sobre a vida dela. Não era sobre o que ela construiu.

Era sobre ela não ter transado. E isso sempre foi tratado como o ponto central da história dela.

Eu acreditava nisso de forma muito profunda. Pra mim, Maria tinha recebido a graça do Espírito Santo e, por isso, tinha concebido Jesus sem relação sexual. Aquilo era apresentado como algo divino, como prova de pureza, como algo que a colocava acima das outras mulheres.

Só que, com o tempo, isso começou a não fazer mais sentido pra mim e não foi um momento específico. Foi um processo.

Eu comecei a perceber que a divindade de uma pessoa não tem relação nenhuma com ela transar ou não. Tem relação com ética, com como ela se relaciona com a natureza, com o quanto ela expressa amor, com o quanto ela busca conhecimento, luz, consciência.

E aí a história começou a se desmontar.

Porque quando você coloca Jesus como alguém que nasce de uma mulher que não transou… você tira ele completamente do campo humano. Você transforma ele em algo inalcançável.

E isso, pra mim, é exatamente o que a religião quer fazer. Tirar Jesus de um lugar de exemplo… e colocar ele num lugar de cobrança.

Como se ele estivesse acima, julgando, esperando algo da gente. Mas, na minha visão, não existe cobrança. Não existe culpa.

E aí entra um ponto que pra mim é muito claro:

isso não é só sobre Maria. Isso é sobre controle.

A igreja sempre tentou controlar a expressão sexual das pessoas. E não é por acaso, dentro de estudos de corpo sutil, a energia sexual é uma das mais fortes que existem.

Então quando você controla isso… você controla a vida da pessoa.

E a história da virgindade de Maria entra exatamente aí.

Porque, dentro dessa lógica, o sexo é sujo. É pecado. Então, pra que Jesus fosse concebido sem o “pecado original”, ele não poderia vir de um ato sexual.

Só que isso cria uma distorção enorme. Porque o corpo passa a ser visto como algo errado. O desejo passa a ser visto como problema.

E a mulher passa a ser medida por isso.

E aí, quando você coloca Maria de Magdala como prostituta e Maria, mãe de Jesus, como virgem…

você cria dois extremos.

Ou a mulher é pura porque não toca no corpo.
Ou ela é impura porque está ligada ao corpo.

E em nenhum dos dois lugares ela é inteira.

Isso não é espiritualidade. Isso é uma imposição sobre o corpo da mulher.

E isso atravessa até hoje.

Eu vejo isso muito claro na história da minha avó. Ela vive, até hoje, um casamento de fachada. Um relacionamento que nunca fez ela feliz, mas que, na cabeça dela, precisa ser mantido porque “é o que agrada a Deus”.

“O que Deus uniu, o homem não separa.” Mesmo que destrua a vida dela.

E eu sei que isso não é um caso isolado. Isso é um padrão.

E de certa forma, eu também fui afetado por isso.

Eu pensei em ser freira. Eu retardei muitas descobertas sobre minha sexualidade porque eu tinha medo de estar pecando contra Deus. E hoje eu olho pra isso com muita clareza.

Se Maria não fosse virgem dentro dessa narrativa…

Jesus seria um modelo possível. Alcançável. Humano.

E quando algo é alcançável… o medo acaba.

E quando o medo acaba… a responsabilidade começa.

E a igreja não vive da responsabilidade das pessoas. A igreja vive do medo.

E isso me leva a uma conclusão muito direta:

Maria precisava ser virgem porque o divino não poderia ser associado ao ato sexual. Porque, dentro dessa lógica, o sexo é sujo. E não só isso.

Existe também uma estrutura de interesse por trás disso tudo. A igreja sempre operou em cima de narrativas que geram controle, e controle também gera poder, gera dinheiro, gera manutenção de estrutura.

Naquela época, casamentos muitas vezes eram arranjados, envolviam terras, envolviam dotes, envolviam interesses. E a forma como essas histórias são contadas nunca é neutra.

Sempre existe um motivo.

E o que mais me chama atenção em tudo isso é perceber o quanto essas histórias foram contadas de um jeito muito específico pra gente.

Principalmente aqui no Brasil. Pra que a gente não questione.

Porque pessoas que têm medo… não questionam.

Não questionam Deus. Não questionam a igreja. Não questionam os governantes.

Principalmente quando alguém diz que está fazendo algo “porque Deus mandou”.

E aí tudo se mantém.

Mas quando você começa a olhar de verdade… quando você começa a questionar… a história deixa de ser sagrada.

obs: O fato de Maria ter tido relações sexuais para conceber Jesus não tira dela sua pureza, não tira dela a força luminosa conquistada por Maria!

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