Na igreja, me ensinaram uma versão muito específica da Maria de Magdala.
Aquela cena que todo mundo conhece: ela sendo apedrejada por homens, Jesus entrando no meio e dizendo “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”. Os homens vão embora e ele fala pra ela: “vá e não voltes a pecar”.
Essa foi a Maria que eu aprendi. Uma mulher que errou. Uma mulher que precisava ser corrigida. Uma mulher que precisava de redenção.
E por muito tempo eu aceitei isso sem questionar.
Mas quando comecei a sair desse lugar, principalmente depois de 2020, quando eu já não estava mais nem na igreja católica nem no espiritismo, e comecei a me colocar como espiritualista sem rótulo… muita coisa começou a fazer mais sentido.
Eu já estava nesse caminho de expansão da consciência, de questionar o que me ensinaram como verdade absoluta. E foi nesse momento que eu tive contato com os trabalhos da Halu Gamashi, com a coleção de livros “Vozes do Graal”.

E ali, a história de Maria de Magdala simplesmente não batia com o que eu tinha aprendido.
E não era só uma diferença de interpretação. Era outra história. Maria de Magdala simplesmente não era uma prostituta.
Ela era herdeira, muito rica, inclusive… Dominava a produção de óleos essenciais. Ajudou centenas de mulheres a saírem da prostituição oferecendo trabalho nas terras dela. INCLUSIVE, ela foi uma das financiadoras do trabalho de Jesus. Ela bebia da mesma fonte de conhecimento que Jesus bebeu e por isso o compreendia tão bem.
E mais do que isso: ela ajudava a traduzir esses ensinamentos de forma mais acessível para os discípulos.
E ainda assim, a história que chegou pra gente foi outra. Isso não é coincidência é construção de narrativa.
Porque quando você junta Maria de Magdala — uma mulher sábia, independente, ativa — com Maria mãe de Jesus — uma mulher que, dentro da narrativa, teve um filho sem transar — o que aparece ali é uma imposição muito clara sobre o corpo da mulher.
De um lado, a mulher que não pode ter desejo.
Do outro, a mulher que é reduzida ao desejo.
E nenhuma das duas pode ser inteira.
Isso NÃO é espiritualidade… Isso é controle.
E aí, pra mim, fica muito claro o porquê Maria de Magdala precisou ser diminuída. Ela não cabia na narrativa que a igreja precisava sustentar.
Porque se Jesus foi um homem que se relacionou com uma mulher… se ele foi casado… se ele teve um filho… a ideia do puritanismo religioso desmorona. E quando essa ideia desmorona, cai junto toda uma estrutura.
Cai o celibato dos padres. Cai a justificativa espiritual pra não terem família. Cai o controle sobre o corpo.
E isso não é espiritual. Isso é 99% financeiro. Afinal, é muito mais conveniente dizer que isso é “pureza” do que admitir que existe uma estrutura inteira sendo mantida.
Então o que fazem? Colocam Maria de Magdala como prostituta. E você percebe que não é qualquer coisa chamar uma mulher de prostituta dentro dessa lógica…
É desmerecer ela da pior forma possível. É garantir que ninguém olhe pra ela como alguém relevante. É garantir que ela não tenha força na história.
E aí vem outra coisa que pra mim é muito evidente: como uma mulher poderia ser tão poderosa, tão sábia, dentro de uma lógica patriarcal… e isso simplesmente ser ignorado?
Não é ignorado. É apagado mesmo, puramente intencional e proposital.
E isso muda completamente a forma como a gente vê Jesus também.
Porque quando você tira essa ideia de que ele era um filho único de Deus, perfeito e que veio nos salvar de todos nossos pecados e coloca Jesus como um homem sábio, que construiu consciência ao longo de várias encarnações, que transmite luz, conhecimento, força, amor… vê como ele fica mais próximo?
Fica mais humano. Mais acessível. Mais real.
E isso, pra mim, faz muito mais sentido. Porque aí não é sobre idolatrar. É sobre trilhar um caminho possível e que nos foi tirado, com a intenção clara de nos manter presos na matrix.
Eu não me vejo 100% na história de Maria de Magdala, mas em algumas partes sim.
Principalmente nesse lugar de ser reduzido. De ser lido por uma parte só. De não ser compreendido na complexidade.
Porque o que a sociedade reproduz hoje não surgiu do nada é consequência direta de histórias deturpadas como a dela.
Quando você olha pro feminino — e aqui eu nem falo só de mulher, eu falo do feminino como energia — o que aparece é algo muito diferente do que a igreja construiu.
No Oriente, por exemplo, o feminino é o Yin.
É o abstrato, a poesia, o sonho, a percepção sutil, a conexão com a natureza, a alquimia das plantas, a conexão natural com a intuição.
E tudo isso foi subvertido, transformado em obediência, transformado em submissão, transformado em silêncio, isso não foi SEM intenção.
E quando eu penso no que seria diferente se Maria de Magdala não tivesse sido apagada… pra mim é muito claro.
Os homens não usariam a Bíblia como justificativa pra abusar, controlar, violentar.
E as mulheres teriam muito mais consciência da própria força. Muito mais autonomia. Muito mais independência (na forma de pensar, nos espaços que almeja ocupar, nas relações que aceitam participar).
E no fim das contas, tudo isso me leva a uma conclusão muito simples:
Maria de Magdala não foi apagada à toa.
Ela foi apagada porque era muito mais conveniente para a igreja
controlar a narrativa chamando uma mulher de prostituta
do que reconhecer que ela era sábia.
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Sou uma pessoa trans e encontrei na espiritualidade livre, na meditação e no autoconhecimento um caminho para reconciliar minha identidade com minha fé. Minha trajetória me mostrou que o amor divino não exclui, acolhe, e hoje dedico meu trabalho a inspirar outras pessoas a viverem uma espiritualidade mais consciente, livre de rótulos e conectada à própria essência. Em 2024, conquistei o 4º lugar na categoria Diversidade e Inclusão do reality The Best Speaker Brasil, reforçando meu propósito de ampliar esse diálogo com mais pessoas.