Tem uma coisa na espiritualidade moderna que me incomoda profundamente: a forma como Deus, os espíritos, os santos ou qualquer outra expressão do sagrado foram transformados numa espécie de central de atendimento para desejos humanos.
E quanto mais eu observo isso, mais eu percebo que o problema não está só na religião, está na forma como muitas pessoas se relacionam com a própria existência, porque existe um medo muito profundo da finitude da vida física.
As pessoas têm muito medo de morrer e hoje em dia isso é acentuado por: medo de morrer sem patrimônio, sem status, sem reconhecimento, sem títulos, sem dinheiro. E esse medo vai reorganizando a espiritualidade de uma forma muito estranha, como se Deus tivesse a obrigação de garantir sucesso material para quem “anda corretamente”.
É como se o Divino tivesse sido reduzido a um provedor de conquistas terrenas e isso aparece em todos os lugares.
Naquele adesivo no carro escrito: “foi Deus que me deu”, no influenciador que ficou milionário divulgando jogo de azar e agradece a Deus pela mansão, na pessoa que acredita que vai passar num concurso público (sem estudar) só porque fez uma campanha espiritual, na amarração amorosa feita para “trazer alguém de volta”, na magia trevosa usada para tentar ganhar dinheiro na loteria, por exemplo.
E o mais curioso é que, mesmo sendo práticas completamente diferentes entre si, o pano de fundo acaba sendo o mesmo:
usar a espiritualidade como substituta da própria responsabilidade humana.
Como se Deus, os mentores, anjos e santos tivessem a função de entregar bens materiais, relacionamentos, dinheiro ou status para quem aprende um suposto código secreto de conduta espiritual.
E isso, pra mim, é uma distorção enorme.
Porque a espiritualidade é imaterial, ela não tem necessidade de coisas materiais.
Quem tem necessidade disso somos nós, encarnados e veja bem, eu não estou dizendo que dinheiro é ruim. Muito pelo contrário. Eu cresci numa família sem muitas condições financeiras. Fazer a feira já era algo difícil. Eu sei o que é desejar coisas básicas e não poder ter. Então eu jamais cairia nesse discurso romantizado de que pobreza aproxima alguém de Deus ou de que dinheiro é algo impuro.
O dinheiro é ferramenta, ele permite acesso à saúde, estudo, viagens, conforto, experiências, mobilidade, dignidade. O problema nunca foi o dinheiro.
O problema é transformar espiritualidade em moeda de troca e isso acontece o tempo inteiro.
A chamada “teologia da prosperidade”, por exemplo, me incomoda profundamente porque ela induz as pessoas a acreditarem que Deus escolhe quem vai prosperar financeiramente com base em obediência religiosa.
Como se existisse um sistema espiritual de recompensa: “faça o que Deus quer e ele vai te abençoar financeiramente.”
E quando a pessoa não consegue prosperar? A culpa volta pra ela.
“Você não teve fé suficiente.”
“Você está desagradando a Deus.”
“Tem algo errado espiritualmente na sua vida.”
Ou seja: além da pessoa estar sofrendo materialmente, ainda carrega culpa espiritual por isso.
Veja como essa é uma lógica perversa!
Porque Deus vira uma espécie de empresário cósmico distribuindo bônus financeiros para os fiéis mais obedientes e eu sinceramente acredito que isso revela muito mais sobre quem cria esse tipo de discurso do que sobre Deus.
Que tipo de pessoa cria um Deus mercenário? E mais importante: quem ganha com isso?
Porque existe lucro emocional, financeiro e psicológico em vender a ideia de um Deus que recompensa materialmente quem segue determinadas regras.
Principalmente quando estamos falando de pessoas emocionalmente fragilizadas, com baixa autoestima, medo, culpa, repressão sexual e pouca capacidade de questionamento.
E isso conecta com outra coisa que eu acredito profundamente: o dinheiro e a energia sexual são as duas das forças mais intensas que existem energeticamente.
E justamente por isso ambas são tão controladas pelas instituições religiosas.
Ou a pessoa é incentivada ao excesso descontrolado…
ou à castração completa.
Quase nunca ao equilíbrio.
Porque uma pessoa equilibrada, consciente do próprio corpo, do próprio desejo e da própria relação com o dinheiro… é muito mais difícil de manipular.
Hoje eu vejo muita gente buscando espiritualidade não porque quer crescer interiormente, mas porque está desesperada. Como se espiritualidade fosse um guarda-chuva que só se usa na tempestade. Ou pior: como se fosse networking energético.
“Se eu me conectar espiritualmente, vou conseguir favores exclusivos.” E posso falar? Esse caminho é extremamente perigoso.
Porque quando a pessoa busca o sagrado movida apenas por interesse material, ela se conecta exatamente com frequências compatíveis com esse estado de consciência: densidade, ego, obsessão, controle.
A espiritualidade luminosa orienta. Ela não substitui. Essa é uma das coisas mais fortes que aprendi.
Pra mim, espiritualidade é lembrar que eu sou um espírito vivendo uma experiência humana e tentando materializar aprendizados necessários para o meu crescimento.
Ela me ajuda com discernimento, força, lucidez, percepção.
Mas ela não faz minhas tarefas por mim, ela não vive por mim, ela não constrói minha consciência no meu lugar e talvez o maior problema de transformar Deus em fornecedor de desejos seja justamente esse:
a pessoa deixa de amadurecer.
Ela começa a viver como um pequeno semideus egocêntrico, como se tivesse acesso privilegiado ao “telefone de Deus”, como se fosse mais especial, mais escolhida, mais iluminada que os outros.
E muitas vezes essas pessoas parecem extremamente acolhedoras, simpáticas e amorosas, mas no fundo carregam uma arrogância enorme.
Porque não querem compartilhar caminhos. Querem impor caminhos.
E quanto mais eu observo tudo isso, mais eu sinto que a verdadeira espiritualidade deveria produzir exatamente o contrário: menos ego, menos medo, menos necessidade de provar superioridade.
E mais consciência, mais responsabilidade, mais presença.
Porque, no fim das contas, a maior coisa que a espiritualidade já me trouxe não foi dinheiro, conquista material ou promessa de recompensa.
Foi a percepção de que eu ainda tenho muito a crescer… e que, apesar disso, Deus continua me amando.