Eu acho que uma das coisas que mais assustam o ser humano não é mudar de vida, mas perceber que tenha vivido baseado em ideias que nunca escolheu conscientemente.

Porque pensar de verdade não é só formar opinião. Pensar desmonta estruturas internas. Desorganiza certezas. Obriga a pessoa a olhar para a própria vida e perguntar:

“isso realmente faz sentido pra mim… ou eu só aprendi a repetir?”

E pouca gente suporta esse tipo de pergunta.

Na minha cabeça, quebrar crenças parece muito com a imagem de uma borboleta tentando sair do casulo. Só que existe um detalhe importante: muitas pessoas continuam dentro do casulo mesmo quando ele já ficou pequeno demais para quem elas se tornaram.

Elas se apertam para caber, diminuem a própria consciência para não romper estruturas antigas.

E isso vai sufocando a vida aos poucos, porque questionar exige força, exige coragem de perder referências. Coragem de admitir que talvez pessoas importantes tenham te ensinado coisas profundamente limitantes. Coragem de perceber que algumas crenças não eram verdades divinas, mas mecanismos de controle, pertencimento ou medo.

E é aí que muita gente trava. O medo de pensar aparece de várias formas, às vezes ele vem como agressividade. A pessoa não consegue escutar uma visão diferente sem sentir raiva, deboche ou necessidade de atacar. Principalmente quando o outro vive de uma forma que desmonta silenciosamente tudo aquilo que ela acredita.

Porque uma pessoa livre incomoda quem vive aprisionado sem perceber.

E eu não digo isso num lugar de superioridade. Eu não olho pras pessoas e sinto pena porque elas não questionam. Na verdade, eu acho que ingenuidade, quando cultivada conscientemente na vida adulta, também é uma sombra.

Existe um ponto em que a pessoa precisa se responsabilizar pelas próprias repetições, nem tudo que permanece na vida da gente é culpa dos outros, tem coisa que permanece porque a gente escolhe não olhar.

E talvez uma das coisas mais difíceis de admitir seja que muitas pessoas não defendem certas crenças porque acreditam profundamente nelas, mas porque desmontá-las significaria perder a própria identidade.

Perder o grupo, perder a família, perder o senso de pertencimento, perder a base em cima da qual tomaram decisões a vida inteira.

Porque existem pessoas que preferem viver dentro de uma mentira estável do que atravessar o desconforto de uma verdade transformadora.

E isso aparece em coisas muito simples.

Eu lembro, por exemplo, de passar na rua, cumprimentar uma tia minha (pra variar evangélica) com carinho e receber de volta um olhar amargurado, torto, como se existir com leveza incomodasse.

E isso me faz pensar muito: Quantas pessoas envelhecem sem nunca realmente viver?

Quantas morrem emocionalmente antes mesmo da morte física, porque nunca permitiram que a própria consciência expandisse além do que aprenderam na infância?

Questionar uma crença dói exatamente por isso, porque ela não está só na mente, ela está misturada na identidade e desmontar identidade dá medo.

Quando eu comecei a questionar certas coisas sobre religião, sexualidade, culpa e Deus, eu não perdi só respostas. Eu perdi chão. Perdi certezas. Perdi a sensação de que existia um caminho totalmente pronto me esperando.

Mas, ao mesmo tempo, eu comecei a ganhar outra coisa: movimento.

Até porque o medo é paralisante e eu percebo isso olhando pra minha própria vida. O “eu” mais novo perderia muito menos tempo se não tivesse tanto medo. Medo de errar. Medo de decepcionar. Medo de viver coisas que no fundo eu já sentia vontade de experimentar.

O medo fazia eu me conter e acredito que seja por isso que hoje eu pense que: pensar aproxima muito mais da liberdade do que da solidão.

Embora, dependendo do ambiente em que você vive, a liberdade venha acompanhada de isolamento temporário, porque quando você começa a mudar internamente, alguns lugares deixam de caber na sua consciência.

Só que eu tenho propriedade pra dizer que o mundo é muito maior do que o primeiro lugar que conhecemos. Existem pessoas diferentes, formas diferentes de viver, lugares onde você não precisa esconder num buraco que nem tatu.

E o mais interessante de tudo isso seja perceber que até minhas crenças atuais continuam em movimento, minha própria ideia sobre Deus continua sendo questionada dentro de mim.

Às vezes eu me pergunto se Deus realmente existe. E, se existe, por que eu ainda chamo Deus de “ele”? Por que eu ainda tento nomear algo que talvez esteja muito além da linguagem humana?

Pensar também é suportar não ter respostas definitivas e isso, pra muita gente, é desesperador.

Porque respostas prontas dão sensação de segurança, mas eu sinceramente não acho que Deus tenha um ego tão fragilizado a ponto de não suportar ser questionado.

Deus e medo não fazem sentido juntos pra mim, o medo pertence muito mais ao instinto, ao ego inferior, ao controle, se existe algo realmente divino, acredito que esteja mais próximo da expansão do que da repressão.

Mais próximo da consciência do que da obediência cega e talvez seja por isso que hoje eu veja identidade como um caderno infinito. Um caderno cheio de páginas já escritas, capítulos encerrados, ideias antigas… mas também cheio de folhas em branco esperando novas perguntas, novas experiências, novas formas de existir.

Porque viver deveria ter mais relação com escrever conscientemente a própria existência… do que repetir frases prontas até a morte e talvez a pergunta mais importante de todas seja:

quem eu seria… se desmontasse todas as ideias que aprendi sobre mim mesmo?

Porque, no fundo, eu acho que a resposta seria simples: eu seria, pela primeira vez, a pureza de quem realmente sou.

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