A viga mestra da quebra de crenças é o questionamento.
E eu não estou falando de questionar por rebeldia, pra parecer inteligente ou desconstruídão. Estou falando daquele momento em que alguma coisa dentro de você simplesmente não consegue mais continuar sustentando uma ideia da mesma forma.
As pessoas acham que a virada de chave da vida vem de acontecimentos externos: Um término, uma mudança de cidade, um trauma ou uma perda.
Mas hoje eu vejo diferente. O ponto de mutação começa antes, muito antes.
Ele começa quando existe uma decisão interna de não continuar vivendo do mesmo jeito.
Foi assim comigo.
Eu morava numa cidade do interior de Minas Gerais, com cerca de 20 mil habitantes. E chegou um momento em que eu simplesmente cansei de dar voltas e mais voltas sem sair do lugar. Não era só sobre cidade. Era sobre consciência.
Porque existem lugares que vão ficando pequenos não pelo tamanho… mas porque você já não cabe mais ali.
E isso foi acontecendo comigo aos poucos.
Eu comecei a perceber que já não conseguia conversar com as pessoas ao meu redor sem sentir que qualquer pensamento diferente viraria uma guerra. Não existia diálogo, o que existia era defesa de território.
As pessoas se ofendem quando você pensa diferente porque elas confundem crença com identidade. Então, quando você questiona uma ideia, elas sentem como se você estivesse atacando quem elas são.
E eu fui me fechando. Não porque eu não tinha o que dizer. Eu me calei porque sabia que seria repreendido.
E aí eu comecei a me isolar. (eeeita, tristeza)
Só que hoje eu vejo uma coisa importante: aquelas pessoas são como são. Permanecer naquele lugar tentando mudar todo mundo teria sido arrogância minha também. Porque ninguém muda porque o outro quer. A pessoa muda quando ela sente necessidade de mudar.
Então eu saí.
Saí pra viver. Saí pra respirar. Saí pra poder falar sem sentir que precisava me amputar o tempo inteiro.
E isso mudou minha vida.
Depois que fui pro estado de São Paulo, comecei minha hormonização em testosterona. Hoje, completo um pouco mais de um ano em testosterona. Algo que eu queria profundamente quando ainda morava no interior, mas que eu não tinha força interna pra materializar.
E isso me fez perceber uma coisa muito forte: a vida muda quando a decisão interna muda primeiro.
Porque a mudança externa só acompanha, a quebra de crenças que já havia começado dentro.
E quando ela começa, ela desmonta muita coisa.
Ela desmonta a forma como você pensa.
A forma como você sente.
A forma como você ocupa o próprio corpo.
Porque crença não é só ideia, crença é energia organizada dentro da consciência.
E eu acredito muito nisso quando penso nas ideoplastias, que é a capacidade do pensamento moldar formas-pensamento. O ser humano faz isso o tempo inteiro.

A pessoa revive discussões mentalmente. Cria cenários que nunca aconteceram. Alimenta paranoia, medo, raiva, culpa. Vai densificando o próprio campo energético sem perceber.
Eu já vivi isso num nível extremo. Teve uma vez que eu literalmente surtei. Achei que alguém tinha invadido minha casa. Puxei o guarda-roupa pra frente da porta e pulei a janela pra pedir ajuda.
Não tinha ninguém. Mas, pra mim, aquilo era real.
Porque o pensamento alimentado ganha força e eu vejo muita gente vivendo assim sem perceber. Alimentando medo todos os dias, alimentando culpa, alimentando caos interno… e depois sem entender por que a vida perde fluidez.
Quando eu falo de fluidez, eu não estou falando de uma vida perfeita. Estou falando de espontaneidade.
Porque quando eu perco minha espontaneidade, eu entro no automático. Cumpro agenda porque está na agenda. Faço as coisas sem presença. E aí eu perco encontros, oportunidades, pessoas, caminhos.
Eu me desconecto das sincronicidades. E isso é muito real pra mim.
Uma vez eu respondi um story de um professor de marketing digital que eu gosto muito. O curso dele custava uns 2.500,00 reais na época. E eu não mandei mensagem esperando ganhar nada. Eu mandei porque genuinamente queria interagir.
E ele simplesmente me deu o curso.
Aquilo me marcou muito porque mostrou exatamente esse fluxo acontecendo. Eu estava conectado comigo, espontâneo, sem cálculo, sem escassez.
Quando o emocional e o mental entram em comunhão, a vida começa a abrir caminhos.
Mas quando a pessoa vive só na camada do instinto… tudo muda e eu vejo muita gente vivendo assim hoje.
A pessoa vive pra acumular roupa. Pra ter celular novo. Pra comprar comida demais e jogar fora depois.
Tem uma frase da Halu Gamashi que nunca saiu da minha cabeça: “os homens são os únicos animais que tiram uma fruta do pé para deixar apodrecer na fruteira.”
Isso diz muito sobre o estado de desconexão que a humanidade vive.
Quando a pessoa perde o contato com si mesma, ela começa a vibrar em medo, raiva, egocentrismo. E aí ela entra num estado quase automático de sobrevivência.
Acredito que a crença que mais me adoeceu tenha sido acreditar que eu era culpado por existir. Que Deus me castigava cruelmente pelos meus erros. Hoje eu olho pra isso e vejo o tamanho da violência psicológica que existe nisso.
Pois, uma pessoa que acredita que merece punição… nunca consegue viver plenamente.
Ela sempre vai se diminuir e fico me perguntando se talvez seja por isso que quebrar crenças doa tanto.
Não dói porque a crença é falsa, dói porque eu acreditava nela com todas as minhas forças (e muito provavelmente porque ela seja falsa)
E também porque existe arrogância nisso.
A arrogância de nunca questionar, a arrogância de achar que já sabe, a arrogância de defender algo só porque aprendeu na infância.
E talvez o que as pessoas mais temam descobrir quando começam a questionar… seja justamente isso:
que passaram grande parte da vida vivendo baseadas em ideias que nunca escolheram conscientemente.